terça-feira, 24 de novembro de 2009

A gente acha que ama


A gente acha que ama.
E achando que amamos nos convencemos que amamos.
E quando convencidos que amamos,
julgamos que sabemos o que é amar.
E julgando que amamos da melhor forma, controlamos.
E controlando deixamos de amar.

Evandro L! Melo

domingo, 22 de novembro de 2009

Mais que gracejo seja o meu desejo agraciar




Cada um de nós tem o seu canto
mas quando a gente se ajunta para tocar
não sei vocês, mas eu gosto tanto que pergunto
Viu, Ser Abianto,
se nenhum de nós é grão e o outro palha,
pra que espalhar?
Quem nos junta é a graça
Favor que não mereço
Mas agradeço e peço
Ó Deus! Me faz também querer comunicar
Àquele com quem interagir, fazer sorrir
Mais que gracejo, seja o meu desejo, agraciar
Graça, faz o artista, no uso do talento
Se num recinto, o ingreço é livre
como que ao ar livre, porque livre é o ar
que lhe soprou seu próprio artesão
e em gratidão e ação de graça dá.

(Roberto Diamanso)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O esfolador de anjos





Por Paulo Brabo || www.baciadasalmas.com



– O que você está lendo?

– Esse aqui.

– É romance? Nunca ouvi falar.

– Todo mundo já ouviu falar dO esfolador de anjos. Todo mundo já leu O esfolador de anjos. Ou pelo menos sabe o final.

– Eu não. Do que se trata?

– De que planeta você é? Bom, o que posso contar que é a história de um contador desempregado, bêbado e deprimido que recebe de um sujeito misterioso uma oferta irrecusável.

– Esfolar anjos, naturalmente.

– Ele não sabe quando aceita a oferta, mas é isso mesmo. O visitante misterioso é mandante da máfia dos demônios e vende peles de anjos no mercado negro.

– O contador vende a alma ao demônio, tipo Fausto.

– Mais ou menos. O demônio precisa da ajuda de um ser humano porque só os humanos são imateriais o bastante para manusear os corpos dos anjos. Os demônios esmagam-nos só de olhar para eles, e as peles estragam.

– Nossa.

– É basicamente isso. O resto não vou contar.

– Pode contar. Eu não vou ler.

– Mesmo? Tem certeza?

– Absoluta. Não é o tipo de história que me prende.

– Essa prenderia. O demônio passa toda semana na casa do contador e deixa um carro diferente na garagem, com o corpo de um anjo no porta-malas. O contador tira a pele e as asas e enterra o resto no quintal. No dia seguinte o demônio passa e leva o carro embora com a pele e as asas no porta-malas. Os dois, o contador e o anjo, nunca mais se falam nem se vêem, só se tratam assim, intermediados pelo carro.

– Só isso?

– Mas é bem legal, descreve bem direitinho como o homem esfola os anjos começando pela base das asas, e os métodos especiais que ele tem de usar para destrinchar os anjos antes de enterrar os pedaços. Eles tem uma anatomia diferente da nossa, embora sejam por fora parecidos. O esqueleto dos anjos é um colar de pérolas.

– O que o contador recebe em troca?

– Essa parte é engraçada. Nunca fica muito claro. Talvez nada, se for pensar bem. No quintal da casa do contador, onde ele enterra as carcaças dos anjos, nasce um jardim maravilhoso, com flores brancas desconhecidas e perfumadas, que todos na vizinhança passam a invejar. Um vizinho vem todos os dias para admirar as flores e traz sempre um engradado de cerveja. Mas fica a impressão de que o contador está esfolando os anjos porque quer. Porque gosta.

– E você gosta dessa história.

– Gosto. Especialmente do final.

– E como termina?

– Um dia, quando o contador abre o porta-malas, está o vizinho ali dentro, só que ele é um anjo, e está vivo.

– O vizinho do engradado de cerveja?

– Ele mesmo. Ferido, mas vivo. Ele vem dar ao contador uma última chance, por assim dizer.

– E o cara se arrepende?

– É meio tarde para se arrepender. O anjo revela ao contador que o demônio mafioso o enganou desde o começo. No começo da história ele não era pobre, nem bêbado nem desempregado; era feliz e tinha uma família bonita, embora não lembre hoje de mais nada. Cada anjo que ele esfolou custou um membro querido da sua família, que desapareceu da existência e de que por isso ele não tem como se lembrar.

– Caraca, e por que ele aceitou a oferta do demônio em primeiro lugar, se não estava deprimido nem desempregado?

– É o que o anjo quer saber antes de matar o contador.

– E o que contador responde?

– Não sei. Não cheguei ainda nesta parte.

– Você está nesta parte.

– Como assim?

– Este é O esfolador de anjos, idiota. Nunca estivemos fora da história. Nunca estivemos fora de história alguma.

– Absurdo. Não é possível.

– Se o contador foi enganado; se estamos na história, nada é inconcebível. Podemos ter enganado ou sido enganados nós mesmos. Não que faça diferença.

– Se é verdade, quem é você na história?

– A pergunta é: quem é você na história?

– E como eu vou saber?

– Depende da pergunta que você me fizer. Ou da resposta que me der.

– Ei, pra que essa faca?

– Está vendo? Você deveria ter perguntado na mão de quem ela está.

– Espere, deixe eu ler a última página.

– Idiota, a última página nunca faz diferença.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Roda viva

Esta música, Roda Viva, de Chico Buarque nunca fez tanto sentido para mim.

Incrível como somos frágeis e um simples evento pode nos levar a lugares e situações nunca antes imaginadas.

Somos como barcos a vela no oceano, alguma vezes estamos no controle das velas e aproveitamos o vento, outras vezes os ventos nos levam sem controle nosso e algumas vezes surgem tempestades que compromete nossa nau.

Assim somos nós, frágeis, e mal nos damos conta disso.

PAZ!

Evandro Melo

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Roda Viva

Chico Buarque

Composição: Chico Buarque

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Cabra da peste

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Esses dias me disseram, a respeito de um projeto que estava desenvolvendo, que Deus levaria as pessoas certas a participar. Compreendo. O problema é que Deus não costuma levar em consideração o fato de que, se as pessoas certas, naquele caso, fossem poucas, eu teria que arcar com um pequeno rombo financeiro. Ele é meio desligado nessas miudezas monetárias. Afinal de contas é dono de todo ouro e prata. Não tem com que se preocupar. Nós é que precisamos desse demônio de papel para sobreviver.

Pensando nisso é que percebi o caminho sutil que está levando o tinhoso a assumir sua forma definitiva nesse mundinho cão.

Aquele espírito de luz, não muito tempo depois de nos aparecer como serpente, abandonou a pobrezinha rastejante e assumiu a forma de metal pesado. Ouro, prata, bronze. Era preciso centenas de escravos para carregar, em carruagens reforçadas, um bom pagamento para casa. Com o passar dos séculos, transformou-se em níquel, mais leve e sutil. Uma boa quantia poderia ser carregada em uma maleta. Lentamente, como o inseto de Kafka, foi afinando até a leveza e versatilidade do papel, e coube em bolsos e cuecas. E vem seguindo seu inacreditável processo de desmaterialização, na intenção maldosa de tomar de novo a forma original da virtualidade, do espírito. Estará, logo, logo, instalado definitivamente dentro de nós.

Não é a toa que o Filho do Homem aconselhou-nos ao desapego total. Não é a toa que chamou o dinheiro pelo seu verdadeiro nome. Mamom. Não é a toa que nos deu como modelo os passarinhos e lírios.

Mas essa insuportável passagem dos evangelhos, talvez uma das mais desprezadas no cristianismo contemporâneo, é quase sempre vista de uma perspectiva, na melhor das hipóteses, parcial. Na esmagadora maioria das vezes, aqueles que não fogem desse texto intragável costumam usá-lo como exemplo do inescapável cuidado de Deus - aquele cuidado que vai fazer a adesão àquele projeto ser certamente suficiente e o rombo no orçamento ser evitado.

Evidentemente não é isso que o texto diz.

O surpreendente com os lírios é que mesmo que muitos floresçam, enfeitem e perfumem o campo, uma enorme quantidade deles morre seca e esturricada na estiagem ou afogada na enchente. Isso quando alguma cabra maldita não pisoteia ou, pior, mata o lírio sufocado em seu esterco. E pássaros, além de serem devorados por uma porção de predadores, são absolutamente incapazes de enxergar a parede de vidro que lhes partirá o pescoço. Ainda assim, por mais absurdo que nos pareça, todos estão sob o cuidado de Deus, segundo o primogênito de Maria.

O negócio é tocar a vida e torcer para nenhuma cabra passar por perto e para que todas as janelas permaneçam abertas.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sou pedra





Os pés estavam bravos com alguma coisa, andavam agitados e solitários à beira do riacho.
Nem pensaram ao avistar uma predra, chutaram raivosos, como que se isso descarregasse a raiva.
A pedra era bela. Redonda e bela. Nem tão grande, nem muito pequena, era bela.

Os pés logo perceberam o que fizeram, arrependidos foram logo falando:

- Pedra, desculpe, estamos nervosos. - e fizeram um convite:
- Pode nos fazer companhia?
- Posso, mas não quero, não quero e não vou. - responde a Pedra enfezada.
- Mas Pedra, por que não?
- Não percebem?! Vocês me chutaram. A culpa é sua!

Os Pés olham tristemente e refletem:

- Sim é verdade, sabemos disso. A culpa é nossa, nos perdoe.

A Pedra responde, ainda sentida:

- Não posso, sou pedra, essa é minha natureza.

- Mas Pedra, assim não seremos amigos. Nos perdoa. - Pedem aflitos os Pés.

- Sinto muito. Sou pedra.


Evandro L! Melo

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Show de lançamento Denis Campos

"Olá galera..

Gostaria de convidar a todos pro show de lançamento do meu primeiro CD, chamado "De todos os ângulos".
Será num sábado, dia 7 de Novembro, às 20h, na Casa da Comuna.

Clique AQUI para ver o Mapa de como chegar lá.

Banda: Jorge Ervolini, Elly Aguiar, Vagner Roberto, Vini Bertolino.
Participações: Gerson Borges, Diego Venâncio.

Conto com a presença de todos!
Divulguem!

Abraços",

Denis Campos.